PECADO ORIGINAL ORIGINAL SIN
Fernando Pessoa trans. Chris Daniels (from Portuguese)

Ah, quem escreverá a història do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.


O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade - o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza - o propósito à mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão -
Meu Deus! meu Deus! meu Deus! -
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

Ah, who will write the history
Of whatever might have been?
If someone wrote it, that would be
The true history of humanity.

All there really is is the world, it's not us, only the world,
What there's not is us, and the truth's in there.
I'm someone who failed to be.
We're all what we suppose ourselves.
Our reality is the one thing we'll never manage.
What is that truth of ours - the dream of childhood's window?
What is that certainty of ours - the proposal on later's table?
I'm meditating, head bowed against superimposed hands
On the high ledge of the balcony window,
Sitting on the edge of a chair, after dinner.

What's my reality's, if all I have is life?
What's mine, if all I am is the someone I exist?

I've been so many Caesars!
In soul, and with some truth,
In imagination, and with some justice,
In intelligence, and with some right -
My God! my God! my God! -
I've been so many Caesars!
I've been so many Caesars!
I've been so many Caesars!

Trans. Copyright © Chris Daniels 2009


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